domingo, 16 de agosto de 2015

Reflectir, acreditar, decidir - com Jeam Monnet

Da convicção à decisão, através do pensamento.

uma lição de Psicologia de Jean Monnet

É tão claro o que Jean Monnet diz nas suas Memórias, a abrir o capítulo 12, precisamente titulado "Uma acção profunda, real, imediata...", que me abstenho de acrescentar seja o que seja. Apenas destacarei, a negrito ou sublinhado, o que considero serem os conceitos-chave desta notável síntese introspectiva.
«Não seria capaz de dizer de onde vem a convicção que, nas circunstâncias importantes da minha vida, trava bruscamente a minha reflexão contínua para a transformar em decisão. É aquilo a que há quem chame o sentido da oportunidade. Não me interrogo, porém sobre a necessidade de fazer isto ou aquilo - é a necessidade que me leva a fazer algo que deixa de ser uma opção a partir do momento em que o vejo com clareza. Para o ver com clareza, preciso de me concentrar - o que só consigo com isolamento, durante longas caminhadas. Desde que saí de Cognac (1), organizei a minha vida de maneira a acordar no campo, a uma boa distância da cidade onde trabalho. Levanto-me cedo  e percorro quilómetros sozinho. Quando saio de casa, levo comigo todos os pensamentos e todas as preocupações da véspera. Depois de caminhar meia hora ou uma hora, começam a desaparecer, e, a pouco e pouco, descubro as coisas que me rodeiam, reparo nas flores ou nas folhas das árvores. Nesse instante, sei que nada pode perturbar-me. Deixo que as minhas ideias se coloquem, por si mesmas, no seu devido lugar. Não me forço a reflectir num determinado assunto - os assuntos surgem-me naturalmente, porque persigo sempre o mesmo pensamento, ou melhor, só persigo um de cada vez. André Horré, que, com a sua mulher, Amélie, se ocupou da nossa casa - melhor dizendo, das nossas sucessivas casas, em Inglaterra, nos Estados Unidos, em França, no Luxemburgo - durante perto de 30 anos, compreendeu-me bem. "É simples, o senhor Monnet põe a sua ideia à frente, fala com ela e tira conclusões."» 
«Je ne saurais dire à quoi tient cette conviction qui dans les circonstances importantes de ma vie arrête brusquement ma réflexion continue pour la transformer en décision. C'est ce que d'autres appellent le sens du moment. Mais je ne m'interroge pas sur la nécessité de faire ceci ou cela – c'est la nécessité qui me conduit à faire quelque chose qui n'est plus un choix dès l'instant où je le vois clairement. Pour le voir clairement, je dois me concentrer – ce que je ne peux obtenir que dans l'isolement, au cours de longues marches. Depuis que j'ai quitté Cognac, j'ai disposé ma vie de manière à me réveiller dans la nature, à bonne distance de la ville où je travaille. Je me lève tôt et je parcours des kilomètres en solitaire. Quand je quitte la maison, j'emporte avec moi toutes les pensées, les préoccupations de la veille. Mais quand j'ai marché pendant une demi-heure ou moment-là, je sais que rien ne peut me déranger. Je laisse mes idées se situer d'elles-mêmes à leur propre niveau. Je ne me force pas à réfléchir à un sujet donné – les sujets me viennent naturellement parce que je poursuis toujours la même pensée, ou plutôt je n'en poursuis qu'une à la fois. André Horré, qui s'est occupé avec sa femme Amélie de notre maison – je devrais dire de nos maisons successives, en Angleterre, aux États-Unis, en France, à Luxembourg – pendant près de trente ans, m'avait bien compris. « C'est simple, Monsieur met son idée devant lui, il lui parle et il conclut. »


(1) A terra de Jean Monnet, em França.

domingo, 2 de agosto de 2015

Falar do amor... É fácil ou são os adultos que complicam?

Exemplo de uma Dharma talk, por Zoketsu Norman Fischer
Um dia, ao final da tarde, a seguir a um sermão Dharma (1), no Centro Zen de Cambridge, um estudante chegou-se a Seung Sahn Soen-sa e perguntou-lhe: O que é o amor?
Soen-sa disse-lhe: Pergunto-te eu: o que é o amor?
O estudante ficou calado.
Então, Soen-sa disse-lhe: Isto é o amor.
O estudante que interpelou Soen-sa continuou calado.
Soen-sa disse-lhe então: Tu perguntas-me. Eu pergunto-te. Isto é o amor.

One evening, after a Dharma talk at the Cambridge Zen
Center, a student asked Seung Sahn Soen-sa, "What is
love?"
Soen-sa said, "I ask you: what is love?"
The student was silent.
Soen-sa said, "This is love."
The student was still silent.
Soen-sa said, "You ask me: I ask you. This is love." 
(in Dropping Ashes on the Buddha: The Teachings of Zen Master Seung Sahn, by Zen Master Seung Sahn (Author), Stephen Mitchell (Compiler), 1976)

(1) 'Dharma talk é uma espécie de sermão, de discurso público sobre budismo, dado por um professor budista.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Sigmund Freud, sempre e sempre escrutinado

S. Freud, em 1926, com 70 anos.
Não sei se haverá outro autor, outro cientista, outro homem, que tenha sido tantas e tantas vezes
escrutinado em todas as dimensões da sua vida.
Tomei recentemente contacto com o trabalho de Mikkel Borch-Jacobson, "Les Patients de Freud, destins".
Borsch-Jacobson tem claramente uma cruzada contra o fundador da Psicanálise. Seja. Na obra, apresentado como filósofo e historiador; na Wikipedia como professor de Literatura Comparada e Francês; a sua tese de doutoramento foi sobre Freud. Ponto.
Pergunto: será que algum dia alguém escrutinará, com a mesma veemência, outros autores-cientistas-clínicos como se insiste em fazer com Freud?
Trago à consciência as elegantes e sustentadas refutações de António Damásio às contribuições científicas de Freud - sim senhor, modelares!
Já agora, pergunto: o que conseguiu, até agora, este veemente autor provar acerca de Freud, inequivocamente?

sábado, 28 de março de 2015

O heróico defensor dos habitantes do planeta Terra anda de metro em Lisboa

O heróico defensor dos habitantes do planeta Terra anda de metro em Lisboa,
em Lisboa dia 4 de Março de 2015, quarta-feira

http://www.moddb.com/groups/empire-at-war/downloads/
save-games-star-wars-the-force-unleashed-use
            Pouco passava das seis da tarde. Tinha acabado de deixar o encontro do British Bar das quartas-feiras e voltava para casa como de costume: de metropolitano, na estação do Cais do Sodré. Já lá em baixo, a chegar ao cais, a dúvida de sempre: a composição do Metro vai aparecer do lado direito, ou do lado esquerdo?...
            Do lado esquerdo, os bancos estavam todos ocupados, e havia muitas pessoas de pé. A composição não deveria tardar, e deveria aparecer por aquele lado; mas eu queria sentar-me a ler. Do lado direito do duplo cais um dos bancos tinha apenas um utilizador: um jovem, de 13 ou 14 anos, talvez. Os dedos do rapaz metralhavam avidamente as teclas laterais de um desses já tão vulgarizados aparelhos de jogos digitais, que a gente agora vê sempre quando se depara, nos espaços públicos, com gente jovem – bastam dois rapazinhos, quase seguramente um deles estará vociferando silenciosas imprecações contra jogadores de futebóis adversários, inimigos de outros exércitos, ou invasores do Espaço. Seria o caso desta vez, num brevíssimo inclinar do aparelho que tinha nas mãos, o rapaz deixou-me ver o que parecia ser um cenário da Guerra das Estrelas. Os invasores não paravam de provocar o esforçado lutador, defensor da Paz dos Homens – de todos, mesmo que alguns de mais Boa Vontade que outros – no planeta Terra.
            Aproveitei o largo espaço à esquerda do concentrado rapazinho, tão largo ainda que deu para pôr também do meu lado esquerdo o livro do “filósofo maldito”, Slavoj Žižek, acerca do atentado do Charlie Hebdo – poucas páginas me faltavam para acabar de ler o tão recente ensaio, que falava de outras invasões e de outras guerras. Ali deixado o livro peguei no jornal que, pouco antes, o meu parceiro de cerveja me deixara. Nesta altura já eu avançava para as notícias das grandes folhas de papel com espírito guerreiro, resolutamente disposto a enfrentar as contendas para que os jornalistas-comandantes me quisessem desafiar. Viessem os inimigos invasores, estaria pronto para eles, mesmo que o meu vizinho de banco, ocupado que estava com outros invasores inimigos, não pudesse ajudar-me. Na verdade, nem uma vez o defensor da Terra levantou os olhos na minha direcção; nem noutra direcção qualquer.
            Não passou muito tempo até constatar que as aparências mais uma vez me tinham enganado: a composição do Metro chegou-se pelo lado em que eu estava, não pelo lado em que, pela densidade de pessoas que o ocupavam, era praticamente segura a dedução de que esse era o lado certo.
            Mesmo ali à minha frente abriu-se a porta de uma das carruagens. Assim ela abriu, assim eu entrei, com essa ligeireza, a antecipar-me às densas pessoas, um lugar sentado ficaria garantido. Entretanto, o meu parceiro de banco não se mexeu, manteve-se todo entregue à defesa da Terra. Igualzinho ao que estava quando entrei na estação e me dei conta dele.
            Já dentro da carruagem, sentado no lugar que escolhi entre a abundância deles, olhei pela janela, ficara com uma curiosidade em relação ao rapazinho: esperaria ainda alguém, ou estava apenas completamente absorto na luta para salvar a Terra?
O meu ângulo de visão não me deixava ver senão a parte de cima do encosto do banco, para enxergar o que ele seguraria ainda nas mãos teria de forçar a postura do tronco, elevá-lo, para ganhar maior ângulo de visão, de cima para baixo; mas, verdadeiramente, não tinha razão nem motivação para o fazer. Já me preparava para voltar à leitura quando vi, pela primeira vez, o moço levantar os olhos da absorvente máquina, que não parava de debitar extra-terrestres.
Olhou para a sua esquerda, o ângulo de visão que me parecia ver sair dos seus olhos, ligeiramente virados para baixo, levariam o foco da sua atenção para uma zona ainda dentro do espaço do assento do banco que até havia bem pouco tinha sido dele e meu. A seguir, levantou os olhos e fez uma varridela na horizontal da posição natural dos olhos, da esquerda para a direita; só a cabeça parecia mexer, até os braços pareciam quietos. Percorrido um ângulo de 180 graus, os olhos do guerreiro rapaz, extremados à sua direita, iniciaram o regresso à posição normal, continuando, entretanto, a explorar o espaço que percorriam; claramente pararam a olhar para dentro da carruagem onde eu estava, pela porta por onde eu entrara.
Precisamente nessa altura, ainda antes de tomar consciência do que assim me mobilizava, e que só a seguir se me clarificou no pensamento, saltei do banco onde me tinha pressurosamente acomodado e corri a apanhar o livro do maldito filósofo. Sim, fora isso mesmo: distraído com a leitura do jornal, tentando desembrulhar-me com os meus circunstanciais extra-terrestres, artigo a artigo, deixara, inconscientemente, o desagradável tema do Charlie Hebdo ali no banco, abandonado, quiçá, desprezado. Note-se bem que eu não tinha visto ainda o livro quando saltei do cómodo banco da carruagem, mas toda aquela sequência no comportamento do defensor da Paz na Terra só poderia indicar o que eu acabei depois por consciencializar.
Peguei no livro e o heróico guerreiro seguiu toda a sequência do meu repentismo. Acabámos por nos olhar um ao outro, a primeira vez naquele tempo todo. Exibi-lhe o polegar direito, naquele gesto em que queremos dizer que está tudo bem e ele ainda me ouviu a deixar-lhe um cordial obrigado. Sorrimos um para o outro, por um momento fomos aliados; ou melhor, por um instante eu fui um dos Homens de Boa Vontade protegido pelo valoroso defensor do planeta Terra!

Sim, pelo menos desta vez, na mente do jovem que só reconhecerei se o voltar a ver ali, sentado no mesmo banco, na mesma empenhada luta entre o Bem e o Mal; dizia eu, pelo menos desta vez, um sentimento de bem fazer se ligou à imaginária fantasia lutadora de quem cresce à procura do que é capaz e do que vale a pena a pena fazer.

domingo, 10 de novembro de 2013

Psicologia e efeito de estufa; precisar e desejar

http://www.tvi24.iol.pt/internacional/poluicao-alteracoes-
climaticas-efeito-estufa-atmosfera-onu-tvi24/1507316-4073.html
As notícias - oficiais, mundiais - sobre o continuado aumento de emissão de gases poluentes para a atmosfera - não obstante tudo o que sabe de conhecimento seguro sobre a gravidade do assunto! - são mesmo muito desanimadoras.
Quase sinto passar-me na mente, em pensamente automático, que o que mais urge, para proteger o futuro dos nossos filhos é combater a avidez americana e também a explosão consumista da China. Seguramente que a resolução dos grandes problemas da Humanidade que habita a periclitante saúde do Planeta Terra passa por tais combates, sejam quais sejam os outros que também tenham de acontecer.
O Mundo precisa de medidas que regulem mais saudavelmente as sociedades; ao mesmo tempo, os países onde se vive, em geral, claramente acima do limiar da pobreza e da indigência humana, precisam de ver os comportamentos dos seus cidadãos claramente alterados, a partir de consciências esclarecidas.
O modelo de desenvolvimento (desenvolvimento?!...) hoje em dia dominante na generalidade dos países privilegia o primado da perspetiva economicista. Estruturalmente baseado no crescimento contínuo do consumo individual, é um beco sem saída; mais, é uma caminhada suicida.
Este modelo, repito, só é bem sucedido na condição do aumento constante do consumo. Seja por interminável acumulação, seja por permanente usa-e-deita-fora, esta estratégia de busca de níveis mais elevados ou satisfatórios de bem-estar (material) das pessoas e das sociedades é - já nem sequer apenas a longo prazo - desastrosa, dramática; e suicida. É, assim, a espécie humana preparando, com pressa evidente, as tábuas do seu próprio caixão.
Egoístas, ávidos, egocêntricos, os países desenvolvidos, com os Estados Unidos da América e a China à cabeça têm de arrepiar caminho imediatamente; e têm de ser combatidos! Combatidos por movimentos de cidadania independentes dos partidos políticos institucionalizados.
Ao mesmo tempo, como já quis eu alertar neste texto, há que olhar e repensar os comportamentos individuais. No fundo, as grandes mudanças precisam de ser preparadas durante um pouco mais de tempo.
É a este nível, que envolve o esforço de pais e professores, que, no meu entender, cabe trazer, com toda a oportunidade, o que Bernardo Sores diz no Livro do Desassossego acerca do Romantismo (os detaques são da minha responsabilidade):

"O mal todo do romantismo é a confusão entre o que nos é preciso e o que desejamos. Todos nós precisamos das coisas indispensáveis à vida, à sua conservação e ao seu continuamento; todos nós desejamos uma vida mais perfeita, uma felicidade completa, a realidade dos nossos sonhos e (…)

É humano querer o que nos é preciso, e é humano desejar o que não nos é preciso, mas é para nós desejável. O que é doença é desejar com igual intensidade o que é preciso e o que é desejável, e sofrer por não ser perfeito como se sofresse por não ter pão. O mal romântico é este: é querer a lua como se houvesse maneira de a obter.

«Não se pode comer um bolo sem o perder.»

Na esfera baixa da política, como no íntimo recinto das almas — o mesmo mal. (...)
A maior acusação ao romantismo não se fez ainda: é a de que ele representa a verdade interior da natureza humana. Os seus exageros, os seus ridículos, os seus poderes vários de comover e de seduzir, residem em que ele é a figuração exterior do que há mais dentro na alma, mas concreto, visualizado, até possível, se o ser possível dependesse de outra coisa que não o Destino."

Porventura será este o grande desafio para a Educação em todos os países do Mundo. Acredito que não há alternativa; e onde se verificar que não há vontade ter-se-á de opôr com persuasão; e se a persuasão não chegar, ter-se-á de se opôr com o combate frontal - ideológico e prático, sem violências físicas e psicológicas autoritárias. Não se fazer assim, já o disse, é o suicído das sociedades e do desenvolvimento humano, cuja representação ieal põe sempre os homens em ambientes paradisíacos da Natureza.

sábado, 28 de setembro de 2013

A REALIDADE INTERNA E A REALIDADE EXTERNA. A FORÇA DE UMA E OUTRA.

A REALIDADE INTERNA E A REALIDADE EXTERNA. A FORÇA DE UMA E OUTRA.

Não abundam as oportunidades de percebermos com satisfatória nitidez a dimensão psicológica dos nossos comportamentos e do que determina a maneira como nos envolvemos com as pessoas que nos rodeiam (em casa, na escola, no trabalho, na sociedade...).
Aquela coisa estranha, quase inefável, a que os engenheiros do comportamento - os psicólogos - deram o nome de "realidade interna", é, na verdade, uma coisa espantosa, de uma força tremenda. Muitas vezes - eu diria mesmo, quase sempre - são as crianças - naquelas fases em que naturalmente procuram, não as palavras adultas, sofisticadas, dos disfarces e das aproximações cautelosas às coisas e aos fenómenos, mas, pelo contrário, ia eu dizer, procuram a palavra, a frase, a forma certa, exata para que as palavras sirvam claramente, rigorosamente, o pensamento e o sentir - que nos mostram com jeito maravilhosamente límpido o que, afinal, todos nós - os adultos - sentimos... Sentimos mas, intrigantemente, à medida que fomos crescendo, perdemos a capacidade de saber expressar.
Uma antiga aluna, por quem tenho um carinho muito especial, trouxe-me à fala um dos seus rapazes. Procurei, na breve conversa que tivemos, tão simplesmente que pudesse formar de mim, em sintonia com as suas necessidades e motivações pessoais, a apreciação e a imagem afetiva que quisesse; e combinámos voltar a conversar. A partir de agora, já poderá formar uma apreciação mais real, menos simplesmente imaginada, dessa pessoa que um dia apareceu na sua vida, com a fantasia de ser o Tio das Baleias. Também a partir de agora poderá preparar-se para a conversa aprazada, com o que de si quiser trazer, ele, que um dia pediu à mãe que lhe arranjasse um médico que o ajudasse a tratar os sonhos.
Tio das Baleias, Médico dos Sonhos, a que mais desafios me levará esta criança espantosa?...
O meu "sobrinho", o meu "paciente" vive intensamente, quase tempestivamente, a organização e a estabilização do seu mundo interior, aquele que nos faz sentirmo-nos pessoas únicas, portadoras de fantasias e desejos; de ambições e quase infinitas outras motivações.
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Os sonhos são uma via privilegiada de organização da nossa vida mental interior, de progressiva separação entre o que nos põe em relação, por um lado, com tudo aquilo que existe e todos aqueles que existem para além de nós; e, por outro lado, com tudo aquilo que vem dos nossos sentires, dos nossos pensamentos, das nossas memórias. A natureza do nosso desenvolvimento limita-nos no modo de fazermos essa separação entre mundo interno e mundo externo. O ser humano precisa de tempo - tempo para que estruturas neurofisiológicas despertem e se estabilizem; tempo para que a Língua nos traga um número minimamente satisfatório de palavras que permitam representar, para os outros e para nós próprios, o que sentimos e o que queremos falar. E há sempre um tempo de amadurecimento de tudo, absolutamente indispensável. Aos poucos, a dimensão simbólica da experiência mental toma formas compreensíveis para o próprio e para que o próprio as partilhe com os outros. Por vezes, a organização da vida simbólica interior estabelece-se de forma muito turbulenta e sofrida. Simbolizar ajuda a compreender; compreender ajuda a dominar e a aceitar; aceitar ajuda a fazer das fraquezas forças.
O sobrinho do Tio das Baleias debate-se, então, há bastante tempo, numa luta muito afligida para ele e para quem nunca lhe faltou ao lado - uma mãe tenazmente disponível. Luta entre ele e os sonhos que fazem parte da hora de dormir. Essa luta, mais tranquila na generalidade das crianças, é nele muito dinâmica, exuberante, tensa, dramática, que o impede de chegar à paz e à saúde do sono.
Há pouco tempo, algures nessa luta travada com a aliada-mãe ali ao seu lado, uma coisa nova aconteceu. A trazer-lhe sinal de que poderia passar a ganhar a guerra. E explica à mãe o que sente, num jeito - espantoso e simples, como só as crianças conseguem fazer! - que ela me reproduz assim:
- "Houve uma vez que me disse que teve um pesadelo mas que era diferente dos outros...  que este era com animais a sério...  por isso não teve tanto medo..."
Extraordinário! Os animais que metem medo não são os verdadeiros, por maiores que sejam as feras, são os que inventamos. O que vem de dentro de nós, tantas vezes sem a gente saber de onde vêm e porque vêm naquele momento, daquela forma, é bem mais poderosamente angustiante do que tantos perigos que vêm de fora, de tudo aquilo ou de toda a gente que existe e vive à nossa volta.
Foi, portanto, desta forma lapidar que a criança nos trouxe à consciência e ao conhecimento a força do que tanto nos adultos como nas crianças nos ameaça o prazer de viver e a sensação de bem-estar que bem gostaríamos de teu em tudo o que nos envolvemos no dia a dia.
Já um dia, há muitos anos, o Sérgio Godinho se interrogava num belo trecho musical sobre uma força estranha que aparecia pelo lado de dentro de cada um de nós, que nos tolhia mais do que as outras tantas que naquele tempo nos queriam impor. Perguntava-se ele"que força é essa, que força é essa, amigo", que só nos manda obedecer, e que nos põe de bem com os outros e de mal connosco mesmos. Sim, é uma força tremenda, telúrica, que nos faz inventar animais bem mais assustadores que as feras que existem mesmo! É uma força que vem dentro de nós, que cresce e se agita bem para além da nossa vontade de a dominar.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Polémica "Triagem dos Doentes" - médicos ou enfermeiros? Testemunho pessoal

Este testemunho, tomo-o como uma obrigação.
Em menos de uma semana, um jovem, um grande amigo, de 20 anos de idade, trouxe-me, ao cabo de uma semana de formação política, o assunto. Não tem ainda (espero que nunca a eles chegue!) os vícios da política baixa, reles, mesquinha; tem ainda o sonho de fazer a experiência da política séria, honesta, ao serviço das populações reais que conhece e de que faz parte.
Hoje, num canal informativo da TV, escutei parte de uma polémica disputada entre um alto representante da Ordem dos Médicos e um alto representante da Ordem dos Enfermeiros: discutia-se competência clínica, triagem de Manchester, asseverava-se o poder e o rigor dos fluxogramas... Pois...
Que posso eu dizer, sem ser médico, sem ser enfermeiro, sem conhecer suficientemente o procedimento de Manchester, sem conhecer os fluxogramas; e sem ter a experiência pessoal das urgências médicas?...
1) Tenho uma irmã médica a quem, muito provavelmente, devo a graça de estar ainda vivo: assinalou-me a tempo a eventual perigosidade de uma manifestação física, visível na minha pele. Subsequentemente, logo a seguir, o médico especialista da situação clínica quase me matou quando, depois de observação direta dessa manifestação física, a desvalorizou completamente, pondo-me na descida vertiginosa, sem retorno, da terrível doença. Por sorte, e a tempo, não me fiei nele.
2) Um dia, um médico estava de serviço à urgência de um hospital. Eu estava num restaurante e o médico estava à distância de uma mesa de casal da mesa em que eu me encontrava. Chamado ao telefone, o médico reagiu visivelmente incomodado ao telefonema que estava a receber, mas tão distraído estava que não se deu conta que poderia ter ali por perto alguém que desse atenção à conversa que estava a ter (ele seguramente conversava com alguém hierarquicamente abaixo dele, no que dizia respeito às responsabilidades do ato clínico, médico). Pondo as palavras a acompanharem uma longa e irritada expiração, o médico rematou a conversa dizendo "Pronto, está bem, eu vou já para aí..." Desligou o telefone, retomou a conversa interrompida com a sua companheira de mesa, pegou outra vez nos talheres e atacou com eles a comida que ainda havia no seu prato, sem sinais de qualquer urgência. Não sei se a "unilateral" conversa que intercetei incomodou mais o médico ou me incomodou a mim.
3) Tenho dois amigos, um casal, que são enfermeiros, e que são amigos extraordinários. São pessoas de uma disponibilidade pessoal e profissional que me dão confiança e tranquilidade imensamente saborosas.
4) Há cerca de dois anos e meio tive uma das noites mais infelizes da minha vida, quando fui à urgência pediátrica do hospital de Santa Maria, para me juntar aos pais do meu neto kosovar, que aguardavam já, dramaticamente afogados nas incontroláveis lágrimas, o veredito dos médicos que tentavam salvar o seu bebé, que atingira apenas um mês de vida. Era o seu primeiro filho. Felizmente, quando a manhã nasceu, nasceu também uma outra alma para os pais e também para mim - a equipa médica conseguiu salvar o bebé!
No caso do meu querido Déon, o momento decisivo - ou melhor, o primeiro momento decisivo - foi o momento em que o bebé chegou à urgência hospitalar aos braços dos pais: enquanto aguardavam angustiadamente a inscrição/triagem do bebé na urgência, de forma absolutamente inopinada, casual, passou ao lado deles um médico que estava de serviço na urgência pediátrica. O médico, sabe-se lá porquê, no meio de outros motivos que poderiam captar a sua atenção, pôs os olhos no bebé Déon. Fosse qual fosse o motivo que o tivesse levado a aparecer ali, naquele lugar, naquele momento, o que todos os que se acotovelavam naquele muito aflito espaço puderam ouvir foi a voz firme do médico dizer: "Este bebé não pode esperar pela inscrição. Este bebé tem de ser visto imediatamente! Levem-no já para ali p'ra dentro!" O desenlace feliz, já o apresentei com a brevidade suficiente.
5) Que posso eu dizer, então sobre o assunto da triagem?... Que, a partir das ocorrências que vivi e relatei nos pontos anteriores, considero que as pessoas - os técnicos, os profissionais -  mais competentes para fazer as triagens hospitalares são aqueles que são capazes de:
5.1) ter o sentido da urgência humana das aflições que levam as pessoas aos hospitais;
5.2) olhar com mais atenção e competência as pessoas doentes que chegam às urgências do que olhar os fluxogramas que os "protocolares" esquemas de triagem mandam ver primeiro que tudo o mais... até mesmo antes da própria pessoa doente.