quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

O Instituto da Criança: um sonho, uma acção – uma verdadeira utopia!

João dos Santos e a Utopia do Instituto da Criança  2/12

Capítulo 2: O Instituto da Criança: um sonho, uma acção – uma verdadeira utopia! (1)

«Foi nesse clima, para mim penoso, duma pedagogia pré-fabricada, que surgiu a ideia da criação do Instituto da Criança» (2)
http://www.agoravox.fr/tribune-libre/article/rages-et-utopies-d-un-enfant-du-154261
No capítulo anterior, o primeiro deste trabalho, quis deixar clara a ideia do que é uma utopia; e quis, complementarmente, deixar preparada a aceitação de que o projecto do Instituto da Criança que João dos Santos liderou é, com toda a legitimidade, uma utopia.
Neste capítulo quero, então, mostrar alguma coisa sobre a maneira como a ideia do Instituto da Criança tomou a forma de um projecto... oficialmente recusado; mas socialmente, educativamente e terapeuticamente necessário.

Na Primavera de 1957, o dr. João dos Santos participou intensamente numa iniciativa da Juventude Musical Portuguesa, em colaboração com a Sociedade Nacional de Belas-Artes, em que foram realizadas várias conferências, com diversos profissionais e estudiosos, correspondendo o empreendimento, “a uma necessidade de elucidação de problemas relacionados com a educação pela Arte, a formação estética e com o exame da sua viabilidade no ensino escolar”. (2)
No prefácio do livro que cerca de 10 anos depois trouxe a público os textos das conferências, o Professor Delfim Santos afirma:
«Uma constante se pode verificar nas exposições dos autores que testemunham neste livro em defesa da remodelação do ensino em Portugal: a formação do professorado, a criação de um Instituto Superior de Pedagogia. O processo está concluído e a certeza reforçada.» (3) (4)
Será que a “certeza reforçada” de que falava o Professor Delfim Santos participou na ideia que em 1974 tomou a forma do projecto de um Instituto da Criança? Pura especulação da minha parte.
“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.” (5)
É engraçado, querido mestre, tomo consciência de que não tenho claro na minha mente o assunto das convicções religiosas que professava. Quero dizer, tenho ideia de quais seriam, mas não encontro na minha memória encontros entre nós os dois, face a face, em que os seus olhos, os gestos, e a voz espelhassem a proximidade e a distância que tivesse em relação a qualquer credo religioso; e também não me lembro de qualquer crítica, sarcasmo ou expressão de intolerância fosse em relação a que convicção religiosa fosse.
Não sei, sinceramente, o que este deus de Fernando Pessoa – poeta e prosador que o mestre tanto apreciava! – quis ou quer; não tenho dúvidas sobre a intensidade do conhecimento e do afecto com que o senhor sonhava e fazia para que a(s) obra(s) nascesse(m).
Eduardo Galeano, o autor uruguaio, foi um exilado político como João dos Santos também foi. Ambos desejavam o mesmo para os seus países, ambos lutaram contra a opressão dos direitos e das liberdades políticas. Tiveram praticamente o mesmo tempo de vida, ambos nasceram em Setembro, ambos faleceram em Abril; quase trinta anos os separam. Ambos porfiaram, ambos lutaram, ambos sonharam.
Eduardo Galeano também sonhou a utopia. Um dia falou dela assim:
«Voy a leer unas palabritas que tienen que ver con el derecho de soñar, con el derecho al delirio, a partir de algo que me ocurrió en Cartagena de Indias, hace ya algún tiempo, cuando estaba en la universidad, dando una charla, junto con un gran amigo, un director de cine argentino, Fernando Birri, y entonces los muchachos, los estudiantes hacían preguntas, a veces a mí, a veces a él, y le tocó a él la más difícil de todas.
Un estudiante se levantó y preguntó:
«¿Para qué sirve la utopía? », yo lo miré con lástima y digo: «¡Uy!, ¡qué lío, ahora!», y él contestó estupendamente, de la mejor manera. Dijo que la utopía está en el horizonte, y dijo: «Yo sé muy bien que nunca la alcanzaré, que si yo camino diez pasos, ella se alejará diez pasos. Cuanto... cuanto más la busque menos la encontraré, porque ella se va alejando a medida que yo me acerco». Buena pregunta, ¿no?, ¿para qué sirve? Pues la utopía sirve para eso: para caminar.» (6)
O Instituto da Criança é o desenho de um projecto colectivo liderado pelo dr. João dos Santos, aproveitando a oportunidade que as circunstâncias dos tempos que se viviam proporcionava. Corria o ano de 1974, vivia-se o sabor inebriante da Revolução do 25 de Abril:
«Foi uma luta árdua, a de nos convencermos uns aos outros, de que o Instituto era importante e, sobretudo, de convencermos alguns de que não devia ser um organismo centralizador de serviços já existentes, mas uma instituição de defesa dos Direitos da Criança, de captação do sentir da população e de diálogo com os Serviços públicos e Associações privadas. A primeira nota enviada ao ministro [dos Assuntos Sociais] foi devolvida com um despacho de desaprovação. Alice Gentil Martins disse, então, as palavras adequadas à estimulação provocatória do grupo e do ministro: "Se o Instituto da Criança é uma utopia, estamos no bom caminho."» (7)
Dez anos depois do projecto do Instituto da Criança (e dois anos depois da publicação do livro sobre a Utopia do Instituto da Criança), a minha colega Maria Guiomar Lima - fomos alunos do dr. João dos Santos na mesma altura -, jornalista de profissão, entrevistou-o e a certa altura põe-lhe as seguintes perguntas:
- O Instituto da Criança corresponde àquilo que pretendia no livro que escreveu?
- Ah, certamente que não! Eu fiz aquele livrinho, A Caminho da Utopia, que envolve decénios do meu amadurecimento. Não podia ser rapidamente captado pelas pessoas que se interessaram pelo Instituto. Os companheiros que comigo o fundaram empurraram-me e gostei. Mas agora estou numa fase em que me interessa mais passar a escrito as coisas que fiz e disse do que continuar a fazer obras.
- É por isso que o Instituto não lhe agrada? (8)
- Eu não disse que não me agrade. Está a fazer coisas interessantes, mas não está dentro daquilo que eu tinha imaginado. Eu próprio lhe chamei utopia, mas espero que, com tempo, hão-de chegar a qualquer coisa equivalente ou paralelo àquilo que eu expus. Um dia, as pessoas hão-de perceber! E fazer aquilo ou outra coisa, desde que façam sentir à sociedade que perdeu a instituição familiar como centro de educação. Na sociedade de hoje - não só em Portugal, em todo o mundo - entrega-se a educação ao Estado. Contudo, o mais importante é o que está antes da escola, ou fora dela. Só quando a escola for tudo, o que está dentro e fora do edifício escolar, é que estarão salvaguardados os interesses da criança e dos familiares. (9)
Aqui está, é exactamente como Fernando Birri disse na resposta à pergunta sobre a utopia: pôde o dr. João dos Santos dar mais dez passos em frente; e a utopia afastou-se também mais dez passos.


Próximo capítulo: O Instituto da Criança: ideias fortes


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(1) 
João dos Santos, “A Caminho de uma Utopia… Um Instituto da Criança”, Lisboa, Livros Horizonte, 1982, p. 32.
(2) João dos Santos e outros, “Educação Estética e Ensino Escolar, Lisboa, Publicações Europa-América”, 1966, p. 7.
(3) João dos Santos e outros, “Educação Estética e Ensino Escolar, Lisboa, Publicações Europa-América”, 1966, p. 12.
(4) João dos Santos é autor, neste livro, de um extenso capítulo (Fundamentos Psicológicos da Educação pela Arte), composto por uma introdução e os seguintes subcapítulos: Evolução Psicológica da Criança, O Falar não é a Única Forma de Linguagem, Linguagem Falada e Linguagem Escrita, Importância da Psicologia Genética na Educação, Desenho e Pintura Livres; e uma Conclusão.
(5)                                                                                         I. O INFANTE
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma.
E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.
Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal! (s.d.)
Mensagem. Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972).  - 57. (http://arquivopessoa.net/textos/2375)
(5) https://www.youtube.com/watch?v=m-pgHlB8QdQ, consultado em 22 de Outubro de 2016.
(6) "L'Atlas des Utopies", Édition 2017, Groupe La Vie - Le Monde, Paris, p. 20.
(7) João dos Santos, “A Caminho de uma Utopia… Um Instituto da Criança”, Lisboa, Livros Horizonte, 1982, pp. 32-33.
(8) Trata-se do Instituto da Criança, criado oficialmente em 1983.
(9) João dos Santos, "Retrato de um mestre utópico e irónico", in Diário de Notícias, Lisboa, 4 de Novembro de 1984.
(10) Construo uma outra analogia entre João dos Santos e Rafael Hitlodeu, sustentada no que recordo das conversas que João dos Santos tinha com os seus alunos, ou outras audiências mais alargadas. Costumava ele dizer que, na idade a que chegara, já não trabalhava, já só fazia o que queria, já só fazia coisas interessantes. Também Rafael Hitlodeu, quando Thomas Morus põe Pedro Gilles a insistir com Rafael para que ponha o seu saber ao serviço dos príncipes, que certamente melhorará a sua própria condição pessoal, Rafael responde que isso o levaria a um estilo de vida que repugnaria a sua natureza, e que naquela altura já vivia como queria, o que certamente seria privilégio de pouca gente.



quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

João dos Santos e a Utopia do Instituto da Criança - 1/12

João dos Santos e a Utopia do Instituto da Criança (1) 1/12

Capítulo 1: As Fronteiras da Ilha da Utopia

«Tel le discours des enfants, l'utopie est une conviction, la nuance vient avec l'âge.» (2)
Assim escreve Boris Cyrulnik, à beira dos 80 anos de idade. Cyrulnik é neuropsiquiatra e Directeur d’Enseignement (3) na Universidade de Toulon. A afirmação é retirada do texto que é a sua contribuição para "L'Atlas des Utopies", edição de 2017, uma publicação conjunta, fora de colecção, das editoras La Vie e Le Monde.
Creio que o eminente estudioso da Psicologia Humana não deixará de ter pensado até que ponto o desejo, para além (ou aquém) da convicção, tem relevância para a construção da utopia. O desejo será da ordem do querer, a convicção da do crer - será isso, então: na concepção deste autor, não basta querer para entrar no reino da Utopia; será preciso também crer.
No dicionário etimológico (4) que é a minha referência básica, José Pedro Machado, escreve:
Figuração da ilha Utopia na obra "Utopia" do humanista
inglês Thomas More, publicada em 1516
Utopia, s. Do lat. humanístico Utopia, nome de país imaginário, palavra criada pelo humanista ingl. Tomás Morus (1480-1535, canonizado em 1935) com os elementos gregos ou, «não», e tópos, «lugar» (vj. top(o)-), isto é, «lugar (que) não (existe)», dada como título a uma das suas obras (em 1516. Séc. XVII, segundo Morais8. (4)
Do ponto de vista conceptual, e sem querer ser exaustivo - afinal, este trabalho não é uma tese, nem ensaia senão discorrer sobre um tema que era muito caro a João dos Santos; e que eu penso conservar toda a importância, vontade e empenho de levar em frente -, pelo que convirá, na minha opinião, fazer uma delimitação, mesmo que grosseira, do conceito de utopia em relação a conceitos que lhe estão próximos, são eles os seguintes: sonho, mito, fantasia, quimera; e delírio.

  • O sonho tem a ver, antes de tudo o mais, com o universo pessoal, da esfera privada; a utopia leva-nos para o universo das relações sociais, da alteridade.
  • O mito remete-nos para o passado, para as origens; a utopia projecta-nos no futuro.
  • A fantasia liberta-se da natureza real das coisas, dos factos e dos processos; a utopia desafia a realidade para que seja diferente, à partida, mais perfeita e mais justa.
  • A quimera, parente da fantasia, é o negativo da utopia - logo à partida, descrê-se da quimera mas a utopia, porque não acreditar nela?
  • O delírio é a doença que tolda o pensamento visionário do entusiástico autor da utopia e a fragiliza.

Quando em 28 de Agosto de 1963, no Lincoln Memorial, em Washington D.C., Martin Luther King, Jr. fez o tão célebre discurso "I Have a Dream", estava ele, em rigor, a falar de um sonho ou de uma utopia? Na verdade, ele não disse "I have an utopia" - e dizer "I have a dream" soa muito mais bonito e aliciante do que dizer "I have an utopia", cativa muito mais facilmente a adesão das outras pessoas. É, no reino da significação das palavras usadas na linguagem corrente, não prisioneiras do rigor dos vocabulários das academias formais do Saber, usam-se assim os nomes, os verbos, os adjectivos e os advérbios: mesclando-se, misturando-se, interpenetrando-se em fronteiras difusas - e esse reino tem toda a legitimidade conceptual, semântica, afectiva e expressiva - numa palavra, comunicativa.
Finalmente, nesta breve introdução, uma palavra sobre a Utopia e as utopias.
A Utopia é, portanto, a ilha ideal de Tomás Morus, é um lugar numa geografia imaginada. Michèle Riot-Sarcey, professora emérita de História Contemporânea na Universidade Paris-8, na mesma colectânea de textos de Boris Cyrulnik, que referi antes, diz que a utopia de Tomás Morus nasceu de um estratagema a que ele, que sabia jogar com os termos gregos, lançou mãos para contornar a censura da sua época. Como diz a autora, «En effet, l'île Utopia est le miroir inversé de l'Angleterre d'Henri VIII.» (5, 6) 
Por seu lado, as utopias serão ideias, tão velhas quanto as aspirações e os sonhos dos homens. Na visão tradicional dos europeus ocidentais estarão, entre as primeiras e mais clássicas, as utopias reformadoras da República de Platão e da Cidade de Deus de Santo Agostinho.
Ah! Falta um pormenor: Tristan Garcia, apresentado como filósofo romancista na colectânea de Cyrulnik e Riot-Sarcey, diz que «Il ne suffit pas de concevoir un autre monde possible, encore faut-il le localizer.» (7, 8)  Em rigor, a ideia de Garcia opõe-se à interpretação estrita da raiz etimológica da Utopia, o nome da ilha de Thomas More: para ele, Garcia, mais do que um não-lugar [nenhures], a Utopia é um lugar que o ouvinte de Rafael (personagem central da Utopia) não consegue, por interferência alheia (providencial?) perceber o nome que a localiza, seja em que mapa seja. (9) 
O pormenor de Garcia não é, no caso da utopia de João dos Santos, de somenos importância; nem a afirmação de Cyrulnik que abre este capítulo: é que a utopia do Instituto da Criança de João dos Santos tem um lugar; e tem a força das convicções que brotam dos desejos infantis - estes, sempre vivos na mente, no sentir e na acção do meu querido Mestre. João dos Santos é Rafael, ou Rafael é João dos Santos? Que a imaginação de cada um traga a satisfatória resposta. (10)

Próximo capítulo: O Instituto da Criança: um sonho, uma acção – uma verdadeira utopia!


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(1) Este trabalho tem como base um outro que apresentei, em Dezembro de 2016, no 
Curso de Extensão de Introdução ao Pensamento Santiano: Estudos sobre a Pedagogia Terapêutica, do Programa de Pós-Graduação em Educação Brasileira, Linha de História da Educação Comparada, da Universidade Federal do Ceará, no Brasil. Esse trabalho tinha como título "A utopia do Instituto da Criança, em que ponto do caminho estamos?". O presente trabalho é, no fundo, o desenvolvimento desse primeiro trabalho que pode, assim, no meu entender, ser considerado um percursor, um trabalho preliminar, sem a ambição que o presente contém - até pelos objectivos que esse outro trabalho visava.
(2) «Tal como o discurso da criança, a utopia é uma convicção, a matização vem com a idade». (tradução livre)
(3) Director de ensino (tradução livre).
(4) José Pedro Machado, "Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, 1977, Livros Horizonte, Lisboa, 3.ª edição, p. 368.
(5) «Com efeito, a ilha Utopia é o espelho invertido da Inglaterra de Henrique VII.» (tradução livre)
(6) "L'Atlas des Utopies", Édition 2017, Groupe La Vie - Le Monde, Paris, p. 20.
(7) «Não basta conceber um outro mundo possível, é preciso localizá-lo.» (tradução livre)
(8) Ibidem, p. 12.
(9) Especialmente delicioso para nós, portugueses, é o pormenor (será que na altura em que foi escrita a Utopia, era mesmo um pormenor?) de ser português o Rafael, aventureiro sábio, que «navegou, não como o marinheiro Palinuro, mas como Ulisses ou, melhor, como Platão» [...] que «se dedicou totalmente à filosofia» [...] e « e estava tão desejoso de ver o mundo, que dividiu o património pelos irmãos (ele é português de nascimento)  seguiu  sua sorte com Américo Vespúcio». (Thomas More, Utopia, 2010, Rés-Editora, Oeiras, p. 13) Ora bem, será que na cabeça de um português a diferença entre o etimológico nenhures e um lugar que não se sabe onde é (ou que se esconde) é significativa e inibidora da activa exploração, ou procura curiosa?
(10) Construo uma outra analogia entre João dos Santos e Rafael Hitlodeu, sustentada no que recordo das conversas que João dos Santos tinha com os seus alunos, ou outras audiências mais alargadas. Costumava ele dizer que, na idade a que chegara, já não trabalhava, já só fazia o que queria, já só fazia coisas interessantes. Também Rafael Hitlodeu, quando Thomas Morus põe Pedro Gilles a insistir com Rafael para que ponha o seu saber ao serviço dos príncipes, que certamente melhorará a sua própria condição pessoal, Rafael responde que isso o levaria a um estilo de vida que repugnaria a sua natureza, e que naquela altura já vivia como queria, o que certamente seria privilégio de pouca gente.



terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

JOÃO DOS SANTOS - O DIA DOS NAMORADOS E OS PAIS

«Dic que temos q ' andar culas modas...», escreve no Facebook o meu caro amigo Alfredo Cameirão,
na língua que lhe é natural - tanto que João dos Santos gostava de conversar sobre o valor relacional da língua e da linguagem, a pré-verbal e a verbal!...
O Dia dos Namorados é uma dessas celebrações que, depois de tempos mais ou menos discretos, se tem imposto como moda especialmente agressiva e exigente. Com verdades e fantasias; ilusões e desenganos, que lhes são cada vez mais característicos.
Como escreve a minha querida Verónica, também no Facebook, e também hoje, «Nos tempos em que trabalhei numa perfumaria, este era o dia em que muito se vendia. E alguns me pediam 2 e 3 perfumes iguais para que as namoradas não notassem o perfume umas das outras...»
Para além da espuma, para além das modas de que fala o mirandês do arguto Alfredo, há que haver serenidade bastante para olhar o que a realidade mostra: os números de casos de violência no namoro, e em idades cada vez mais precoces - as estatísticas registam já as ocorrências a partir dos 13 anos de idade... -, continuam a aumentar.
Por uma curiosa e feliz coincidência, de que falei há poucochinho noutro lado (Pensar a paixão, o amar e o namorar com a ajuda de Eça de Queiroz), pude ler, precisamente hoje, um extraordinário texto de João dos Santos sobre o casamento; texto esse que ele escreveu para "O Tempo e o Modo", em resposta a um inquérito composto por três perguntas (1) feitas ao psicanalista, numa edição especial da revista, sobre o casamento. Em Março de 1968.
Todo o texto é de uma permanente riqueza, e arranjarei maneira de o partilhar integralmente, assim que a oportunidade surja; e levá-lo-ei para a escola, aos alunos e aos professores; o meu intento, agora, é trazer imediatamente alguma coisa aos pais. É que a reflexão  do autor, não obstante os 50 anos que passaram, conserva todo o valor.
A citação é um pouco longa, no excerto que quero aqui reproduzir consegui tirar apenas umas poucas linhas; se mais tirasse, muito provavelmente a concepção de João dos Santos apareceria truncada, penso eu.
«O ser humano precisa, para ser gerado, duma célula masculina e doutra feminina, como precisa para ser educado de afecto feminino e de afecto masculino (2) recebido e retribuído em relações simples, quer dizer binárias (mãe-filho) ou triangulares (mãe-filho-pai ou autoridade do clã ou grupo). O preconceito escolar que fez da educação uma técnica pedagógica, levou-nos a esquecer que a criança aprende com a mãe, antes dos três anos, tudo o que há de essencial ao homem: a dominar-se, andar, manipular, falar, etc. O desconhecimento de que o que não se aprende instintivamente com a mãe, não é susceptível de ser aprendido didacticamente, leva muitos jovens a considerar de ânimo leve as suas relações amorosas, o seu casamento, o seu divórcio e o destino dos seus filhos. (3) [...] A chamada Revolução Sexual Americana parece-nos não poder separar-se do progresso económico-social de certas comunidades urbanas e, em particular, da concepção do Homem-consumidor. Cada cidadão tende a ser actualmente um consumidor de produtos e tudo está organizado para que ele tenha tudo à sua disposição para uma vida confortável (4). Cada indivíduo vive para ter conforto e trabalha para o pagar. Inquéritos recentes feitos nos Estados Unidos mostram que a mulher se tornou sexualmente mais activa e exigente e que o homem obcecado pelo seu trabalho se mostra menos interessado e menos capaz na vida íntima do casal. A superficialidade e a versatilidade das relações extra-conjugais podem ser a reacção a este estado de coisas.» (João dos Santos, "O Tempo e o Modo", Extra-colecção, - 2.º Caderno, «O Casamento», Março de 1968, pp. 228-9)
Que tem, então, na minha opinião, este pensamento de João dos Santos a ver com o Dia dos Namorados?
Tem a ver com várias questões, a mais pertinente das quais será esta: como estão os adultos, os pais, a educar os filhos para as relações de namoro? As paixões e os namoros são inerentes à condição afectiva e relacional fundamental do ser humano; envolvem instintos, impulsos e sentimentos que reclamam expansão, mas também domínio e controlo do exacerbamento pessoal ou induzido (por exemplo, por influência dos pares ou da agressiva pressão comercial).
Que condições dão as organizações sociais modernas às mães para que possam realizar satisfatoriamente o seu tão fundamental papel de educadora dos instintos infantis? Que valor é hoje reconhecido aos afectos masculinos na estruturação do temperamento e da personalidade da criança?
E deixamos em branco o assunto do «Urbanismo anárquico que torna frouxas as relações afectivas entre os homens» (p. 229), entendendo-se aqui homens no sentido geral, abrangendo ambos os sexos.


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(1) Pergunta: Recentemente, a revista Observer dedicou um número ao casamento, com o título Seremos nós a última geração que se casa? a) Para além do slogan sensacionalista, que lhe diz a sua experiência de psicanalista sobre a tão falada "crise do casamento"? b) Parece-lhe poder-se dizer que essa crise, nas suas novas proporções, atinge já o nosso país? Em caso afirmativo, quais as suas causas e consequências? c) Parece-lhe legítimo dizer-se que só ao nível institucional as pessoas encontram a segurança afectiva de que necessitam? Pensa que há pessoas que sempre precisarão do casamento?
(2) Seria interessante ouvir João dos Santos sobre as modernas composições familiares que, legalmente, conferem legitimidade a duas mães ou dois pais. Tenho ideia de que João dos Santos não as recusaria, mas certamente daria contributo muito valioso para o pensamento e as atitudes de todos, começando, é claro, pelos próprios pares parentais; e chegando a quem contra eles tantos preconceitos e oposição manifestam. 
(3) O sublinhado é da minha responsabilidade.
(4) Parece-nos esta perspectiva de João dos Santos acerca do conforto muito próxima da que Daniel Lieberman assume, 45 anos depois, na magnífica obra "The Story of Human Body", em que distingue, de forma bem avisada, conforto de bem-estar: «Faz parte da natureza humana deixar que o instinto que procura o conforto se sobreponha à lógica [do bem-estar reclamado pela condição humana natural] (vou de elevador só desta vez), e muitas vezes não reconhecemos que certos confortos diários normais são prejudiciais quando levados ao extremo. O conforto também é rentável. Passamos o dia a ver e a ouvir anúncios de produtos que apelam ao nosso desejo aparentemente insaciável de mais conforto.» (edição portuguesa, 2015, p. 419)

domingo, 16 de agosto de 2015

Reflectir, acreditar, decidir - com Jeam Monnet

Da convicção à decisão, através do pensamento.

uma lição de Psicologia de Jean Monnet

É tão claro o que Jean Monnet diz nas suas Memórias, a abrir o capítulo 12, precisamente titulado "Uma acção profunda, real, imediata...", que me abstenho de acrescentar seja o que seja. Apenas destacarei, a negrito ou sublinhado, o que considero serem os conceitos-chave desta notável síntese introspectiva.
«Não seria capaz de dizer de onde vem a convicção que, nas circunstâncias importantes da minha vida, trava bruscamente a minha reflexão contínua para a transformar em decisão. É aquilo a que há quem chame o sentido da oportunidade. Não me interrogo, porém sobre a necessidade de fazer isto ou aquilo - é a necessidade que me leva a fazer algo que deixa de ser uma opção a partir do momento em que o vejo com clareza. Para o ver com clareza, preciso de me concentrar - o que só consigo com isolamento, durante longas caminhadas. Desde que saí de Cognac (1), organizei a minha vida de maneira a acordar no campo, a uma boa distância da cidade onde trabalho. Levanto-me cedo  e percorro quilómetros sozinho. Quando saio de casa, levo comigo todos os pensamentos e todas as preocupações da véspera. Depois de caminhar meia hora ou uma hora, começam a desaparecer, e, a pouco e pouco, descubro as coisas que me rodeiam, reparo nas flores ou nas folhas das árvores. Nesse instante, sei que nada pode perturbar-me. Deixo que as minhas ideias se coloquem, por si mesmas, no seu devido lugar. Não me forço a reflectir num determinado assunto - os assuntos surgem-me naturalmente, porque persigo sempre o mesmo pensamento, ou melhor, só persigo um de cada vez. André Horré, que, com a sua mulher, Amélie, se ocupou da nossa casa - melhor dizendo, das nossas sucessivas casas, em Inglaterra, nos Estados Unidos, em França, no Luxemburgo - durante perto de 30 anos, compreendeu-me bem. "É simples, o senhor Monnet põe a sua ideia à frente, fala com ela e tira conclusões."» 
«Je ne saurais dire à quoi tient cette conviction qui dans les circonstances importantes de ma vie arrête brusquement ma réflexion continue pour la transformer en décision. C'est ce que d'autres appellent le sens du moment. Mais je ne m'interroge pas sur la nécessité de faire ceci ou cela – c'est la nécessité qui me conduit à faire quelque chose qui n'est plus un choix dès l'instant où je le vois clairement. Pour le voir clairement, je dois me concentrer – ce que je ne peux obtenir que dans l'isolement, au cours de longues marches. Depuis que j'ai quitté Cognac, j'ai disposé ma vie de manière à me réveiller dans la nature, à bonne distance de la ville où je travaille. Je me lève tôt et je parcours des kilomètres en solitaire. Quand je quitte la maison, j'emporte avec moi toutes les pensées, les préoccupations de la veille. Mais quand j'ai marché pendant une demi-heure ou moment-là, je sais que rien ne peut me déranger. Je laisse mes idées se situer d'elles-mêmes à leur propre niveau. Je ne me force pas à réfléchir à un sujet donné – les sujets me viennent naturellement parce que je poursuis toujours la même pensée, ou plutôt je n'en poursuis qu'une à la fois. André Horré, qui s'est occupé avec sa femme Amélie de notre maison – je devrais dire de nos maisons successives, en Angleterre, aux États-Unis, en France, à Luxembourg – pendant près de trente ans, m'avait bien compris. « C'est simple, Monsieur met son idée devant lui, il lui parle et il conclut. »


(1) A terra de Jean Monnet, em França.

domingo, 2 de agosto de 2015

Falar do amor... É fácil ou são os adultos que complicam?

Exemplo de uma Dharma talk, por Zoketsu Norman Fischer
Um dia, ao final da tarde, a seguir a um sermão Dharma (1), no Centro Zen de Cambridge, um estudante chegou-se a Seung Sahn Soen-sa e perguntou-lhe: O que é o amor?
Soen-sa disse-lhe: Pergunto-te eu: o que é o amor?
O estudante ficou calado.
Então, Soen-sa disse-lhe: Isto é o amor.
O estudante que interpelou Soen-sa continuou calado.
Soen-sa disse-lhe então: Tu perguntas-me. Eu pergunto-te. Isto é o amor.

One evening, after a Dharma talk at the Cambridge Zen
Center, a student asked Seung Sahn Soen-sa, "What is
love?"
Soen-sa said, "I ask you: what is love?"
The student was silent.
Soen-sa said, "This is love."
The student was still silent.
Soen-sa said, "You ask me: I ask you. This is love." 
(in Dropping Ashes on the Buddha: The Teachings of Zen Master Seung Sahn, by Zen Master Seung Sahn (Author), Stephen Mitchell (Compiler), 1976)

(1) 'Dharma talk é uma espécie de sermão, de discurso público sobre budismo, dado por um professor budista.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Sigmund Freud, sempre e sempre escrutinado

S. Freud, em 1926, com 70 anos.
Não sei se haverá outro autor, outro cientista, outro homem, que tenha sido tantas e tantas vezes
escrutinado em todas as dimensões da sua vida.
Tomei recentemente contacto com o trabalho de Mikkel Borch-Jacobson, "Les Patients de Freud, destins".
Borsch-Jacobson tem claramente uma cruzada contra o fundador da Psicanálise. Seja. Na obra, apresentado como filósofo e historiador; na Wikipedia como professor de Literatura Comparada e Francês; a sua tese de doutoramento foi sobre Freud. Ponto.
Pergunto: será que algum dia alguém escrutinará, com a mesma veemência, outros autores-cientistas-clínicos como se insiste em fazer com Freud?
Trago à consciência as elegantes e sustentadas refutações de António Damásio às contribuições científicas de Freud - sim senhor, modelares!
Já agora, pergunto: o que conseguiu, até agora, este veemente autor provar acerca de Freud, inequivocamente?

sábado, 28 de março de 2015

O heróico defensor dos habitantes do planeta Terra anda de metro em Lisboa

O heróico defensor dos habitantes do planeta Terra anda de metro em Lisboa,
em Lisboa dia 4 de Março de 2015, quarta-feira

http://www.moddb.com/groups/empire-at-war/downloads/
save-games-star-wars-the-force-unleashed-use
            Pouco passava das seis da tarde. Tinha acabado de deixar o encontro do British Bar das quartas-feiras e voltava para casa como de costume: de metropolitano, na estação do Cais do Sodré. Já lá em baixo, a chegar ao cais, a dúvida de sempre: a composição do Metro vai aparecer do lado direito, ou do lado esquerdo?...
            Do lado esquerdo, os bancos estavam todos ocupados, e havia muitas pessoas de pé. A composição não deveria tardar, e deveria aparecer por aquele lado; mas eu queria sentar-me a ler. Do lado direito do duplo cais um dos bancos tinha apenas um utilizador: um jovem, de 13 ou 14 anos, talvez. Os dedos do rapaz metralhavam avidamente as teclas laterais de um desses já tão vulgarizados aparelhos de jogos digitais, que a gente agora vê sempre quando se depara, nos espaços públicos, com gente jovem – bastam dois rapazinhos, quase seguramente um deles estará vociferando silenciosas imprecações contra jogadores de futebóis adversários, inimigos de outros exércitos, ou invasores do Espaço. Seria o caso desta vez, num brevíssimo inclinar do aparelho que tinha nas mãos, o rapaz deixou-me ver o que parecia ser um cenário da Guerra das Estrelas. Os invasores não paravam de provocar o esforçado lutador, defensor da Paz dos Homens – de todos, mesmo que alguns de mais Boa Vontade que outros – no planeta Terra.
            Aproveitei o largo espaço à esquerda do concentrado rapazinho, tão largo ainda que deu para pôr também do meu lado esquerdo o livro do “filósofo maldito”, Slavoj Žižek, acerca do atentado do Charlie Hebdo – poucas páginas me faltavam para acabar de ler o tão recente ensaio, que falava de outras invasões e de outras guerras. Ali deixado o livro peguei no jornal que, pouco antes, o meu parceiro de cerveja me deixara. Nesta altura já eu avançava para as notícias das grandes folhas de papel com espírito guerreiro, resolutamente disposto a enfrentar as contendas para que os jornalistas-comandantes me quisessem desafiar. Viessem os inimigos invasores, estaria pronto para eles, mesmo que o meu vizinho de banco, ocupado que estava com outros invasores inimigos, não pudesse ajudar-me. Na verdade, nem uma vez o defensor da Terra levantou os olhos na minha direcção; nem noutra direcção qualquer.
            Não passou muito tempo até constatar que as aparências mais uma vez me tinham enganado: a composição do Metro chegou-se pelo lado em que eu estava, não pelo lado em que, pela densidade de pessoas que o ocupavam, era praticamente segura a dedução de que esse era o lado certo.
            Mesmo ali à minha frente abriu-se a porta de uma das carruagens. Assim ela abriu, assim eu entrei, com essa ligeireza, a antecipar-me às densas pessoas, um lugar sentado ficaria garantido. Entretanto, o meu parceiro de banco não se mexeu, manteve-se todo entregue à defesa da Terra. Igualzinho ao que estava quando entrei na estação e me dei conta dele.
            Já dentro da carruagem, sentado no lugar que escolhi entre a abundância deles, olhei pela janela, ficara com uma curiosidade em relação ao rapazinho: esperaria ainda alguém, ou estava apenas completamente absorto na luta para salvar a Terra?
O meu ângulo de visão não me deixava ver senão a parte de cima do encosto do banco, para enxergar o que ele seguraria ainda nas mãos teria de forçar a postura do tronco, elevá-lo, para ganhar maior ângulo de visão, de cima para baixo; mas, verdadeiramente, não tinha razão nem motivação para o fazer. Já me preparava para voltar à leitura quando vi, pela primeira vez, o moço levantar os olhos da absorvente máquina, que não parava de debitar extra-terrestres.
Olhou para a sua esquerda, o ângulo de visão que me parecia ver sair dos seus olhos, ligeiramente virados para baixo, levariam o foco da sua atenção para uma zona ainda dentro do espaço do assento do banco que até havia bem pouco tinha sido dele e meu. A seguir, levantou os olhos e fez uma varridela na horizontal da posição natural dos olhos, da esquerda para a direita; só a cabeça parecia mexer, até os braços pareciam quietos. Percorrido um ângulo de 180 graus, os olhos do guerreiro rapaz, extremados à sua direita, iniciaram o regresso à posição normal, continuando, entretanto, a explorar o espaço que percorriam; claramente pararam a olhar para dentro da carruagem onde eu estava, pela porta por onde eu entrara.
Precisamente nessa altura, ainda antes de tomar consciência do que assim me mobilizava, e que só a seguir se me clarificou no pensamento, saltei do banco onde me tinha pressurosamente acomodado e corri a apanhar o livro do maldito filósofo. Sim, fora isso mesmo: distraído com a leitura do jornal, tentando desembrulhar-me com os meus circunstanciais extra-terrestres, artigo a artigo, deixara, inconscientemente, o desagradável tema do Charlie Hebdo ali no banco, abandonado, quiçá, desprezado. Note-se bem que eu não tinha visto ainda o livro quando saltei do cómodo banco da carruagem, mas toda aquela sequência no comportamento do defensor da Paz na Terra só poderia indicar o que eu acabei depois por consciencializar.
Peguei no livro e o heróico guerreiro seguiu toda a sequência do meu repentismo. Acabámos por nos olhar um ao outro, a primeira vez naquele tempo todo. Exibi-lhe o polegar direito, naquele gesto em que queremos dizer que está tudo bem e ele ainda me ouviu a deixar-lhe um cordial obrigado. Sorrimos um para o outro, por um momento fomos aliados; ou melhor, por um instante eu fui um dos Homens de Boa Vontade protegido pelo valoroso defensor do planeta Terra!

Sim, pelo menos desta vez, na mente do jovem que só reconhecerei se o voltar a ver ali, sentado no mesmo banco, na mesma empenhada luta entre o Bem e o Mal; dizia eu, pelo menos desta vez, um sentimento de bem fazer se ligou à imaginária fantasia lutadora de quem cresce à procura do que é capaz e do que vale a pena a pena fazer.