Este testemunho, tomo-o como uma obrigação.
Em menos de uma semana, um jovem, um grande amigo, de 20 anos de idade, trouxe-me, ao cabo de uma semana de formação política, o assunto. Não tem ainda (espero que nunca a eles chegue!) os vícios da política baixa, reles, mesquinha; tem ainda o sonho de fazer a experiência da política séria, honesta, ao serviço das populações reais que conhece e de que faz parte.
Hoje, num canal informativo da TV, escutei parte de uma polémica disputada entre um alto representante da Ordem dos Médicos e um alto representante da Ordem dos Enfermeiros: discutia-se competência clínica, triagem de Manchester, asseverava-se o poder e o rigor dos fluxogramas... Pois...
Que posso eu dizer, sem ser médico, sem ser enfermeiro, sem conhecer suficientemente o procedimento de Manchester, sem conhecer os fluxogramas; e sem ter a experiência pessoal das urgências médicas?...
1) Tenho uma irmã médica a quem, muito provavelmente, devo a graça de estar ainda vivo: assinalou-me a tempo a eventual perigosidade de uma manifestação física, visível na minha pele. Subsequentemente, logo a seguir, o médico especialista da situação clínica quase me matou quando, depois de observação direta dessa manifestação física, a desvalorizou completamente, pondo-me na descida vertiginosa, sem retorno, da terrível doença. Por sorte, e a tempo, não me fiei nele.
2) Um dia, um médico estava de serviço à urgência de um hospital. Eu estava num restaurante e o médico estava à distância de uma mesa de casal da mesa em que eu me encontrava. Chamado ao telefone, o médico reagiu visivelmente incomodado ao telefonema que estava a receber, mas tão distraído estava que não se deu conta que poderia ter ali por perto alguém que desse atenção à conversa que estava a ter (ele seguramente conversava com alguém hierarquicamente abaixo dele, no que dizia respeito às responsabilidades do ato clínico, médico). Pondo as palavras a acompanharem uma longa e irritada expiração, o médico rematou a conversa dizendo "Pronto, está bem, eu vou já para aí..." Desligou o telefone, retomou a conversa interrompida com a sua companheira de mesa, pegou outra vez nos talheres e atacou com eles a comida que ainda havia no seu prato, sem sinais de qualquer urgência. Não sei se a "unilateral" conversa que intercetei incomodou mais o médico ou me incomodou a mim.
3) Tenho dois amigos, um casal, que são enfermeiros, e que são amigos extraordinários. São pessoas de uma disponibilidade pessoal e profissional que me dão confiança e tranquilidade imensamente saborosas.
4) Há cerca de dois anos e meio tive uma das noites mais infelizes da minha vida, quando fui à urgência pediátrica do hospital de Santa Maria, para me juntar aos pais do meu neto kosovar, que aguardavam já, dramaticamente afogados nas incontroláveis lágrimas, o veredito dos médicos que tentavam salvar o seu bebé, que atingira apenas um mês de vida. Era o seu primeiro filho. Felizmente, quando a manhã nasceu, nasceu também uma outra alma para os pais e também para mim - a equipa médica conseguiu salvar o bebé!
No caso do meu querido Déon, o momento decisivo - ou melhor, o primeiro momento decisivo - foi o momento em que o bebé chegou à urgência hospitalar aos braços dos pais: enquanto aguardavam angustiadamente a inscrição/triagem do bebé na urgência, de forma absolutamente inopinada, casual, passou ao lado deles um médico que estava de serviço na urgência pediátrica. O médico, sabe-se lá porquê, no meio de outros motivos que poderiam captar a sua atenção, pôs os olhos no bebé Déon. Fosse qual fosse o motivo que o tivesse levado a aparecer ali, naquele lugar, naquele momento, o que todos os que se acotovelavam naquele muito aflito espaço puderam ouvir foi a voz firme do médico dizer: "Este bebé não pode esperar pela inscrição. Este bebé tem de ser visto imediatamente! Levem-no já para ali p'ra dentro!" O desenlace feliz, já o apresentei com a brevidade suficiente.
5) Que posso eu dizer, então sobre o assunto da triagem?... Que, a partir das ocorrências que vivi e relatei nos pontos anteriores, considero que as pessoas - os técnicos, os profissionais - mais competentes para fazer as triagens hospitalares são aqueles que são capazes de:
5.1) ter o sentido da urgência humana das aflições que levam as pessoas aos hospitais;
5.2) olhar com mais atenção e competência as pessoas doentes que chegam às urgências do que olhar os fluxogramas que os "protocolares" esquemas de triagem mandam ver primeiro que tudo o mais... até mesmo antes da própria pessoa doente.
consultas de Psicologia Dinâmica centrada na auto-regulação voluntária e consciente do comportamento pessoal
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
terça-feira, 25 de junho de 2013
“Abô”, disse ele.
- Abô!...
O meu
neto hoje chamou-me, pela primeira vez, avô. “Abô”, disse ele.
Foi o
pai, o meu filho, que o incentivou a dizer esta nova palavra do seu
vocabulário. O meu neto aderiu imediatamente, e disse “abô” uma, duas, três
vezes; até eu lhe perder a conta.
O que o
Déon fez é especialmente extraordinário!... O pai, inspirado por um pensamento
súbito, não premeditado, brotado da fonte sábia dos afetos amadurecidos, foi
autor de uma notável experiência humana.
O Déon
nasceu em Portugal mas não é português. O pai do meu neto não é meu filho, tal
como a mãe do Déon. O Déon tem dois avós kosovares, que adoram o seu lindo
neto. O Déon gosta muito dos avós, que anseiam de saudades pelo neto de quem eu
sou avô.
O Déon
tem pouco mais de 2 anos, e não fala português. Vive com os pais na Suíça, fala
a língua materna dos pais. Se todas as crianças tivessem um pai e uma mãe como
o Déon tem, todo as as crianças do Mundo seriam muito felizes!
Eu não
estou com o meu neto desde novembro passado, quando ele foi viver para a Suíça.
Os pais moravam em Odivelas, foram para Zurique procurar melhor vida para eles
e para a família que estão a criar.
O
Samir, o pai do meu neto, tem já a cidadania portuguesa há algum tempo.
Conheci-o em 1999, depois de ter sido convidado - sem que ainda hoje saiba quem e por que
razão fez que o convite me fosse feito na escola onde ainda leciono – a ir trabalhar lá para cima, em
Entre-os-Rios, com um grupo de
refugiados, que tinha acabado de chegar a Portugal, protegendo-se da guerra do
Kosovo. Não fui. Não fui mas indiquei quem fosse e garanti a orientação
sociopedagógica do trabalho.
Quando
o grupo de cidadãos kosovares voltou para a sua terra, o Samir estava cheio de
vontade de continuar em Portugal. Pelos laços criados e porque queria fazer
pela sua vida; a sua terra não lhe oferecia perspetivas de desenvolvimento de
uma profissão. Mas ele tinha mesmo de voltar a Prishtina, a lei dos refugiados
de guerra não lhe dava outras hipóteses naquela altura. O melhor que consegui
fazer foi prometer-lhe que tudo tentaria para que ele voltasse a Portugal.
Pedi-lhe um ano para cumprir a promessa. Cumpri a promessa dentro do tempo que
lhe pedi. Entre a promessa e o cumprimento dela fui ao Kosovo visitá-lo, à
família e aos outros concidadãos que conheci em Entre-os-Rios e na Póvoa do
Varzim, para onde, entretanto, se tinham mudado a meio do seu tempo em Portugal.
Passaram
cerca de 12 anos entre o tempo de o Samir voltar de Prishtina a Lisboa e ir de
Lisboa a Zurich. Foi tempo de vida intensa, de um jovem que queria organizar a
sua vida, enfrentou e venceu problemas de saúde delicados; foi desafiado por
comportamentos e valores diferentes dos da sua cultura familiar e, sendo fiel
aos seus, criou um círculo de relações humanas extraordinário à sua volta. Foi
ao Kosovo a espaços e de lá trouxe uma muito bonita jovem como sua esposa.
Logo no
início de abril de 2011 nasceu o Déon. Alguns meses antes, eu, como tantas vezes o fizera já, tinha reagido instintivamente
à vibração do telemóvel e levara a mão ao bolso. Era o sinal de uma mensagem
acabada de chegar. A mensagem dizia: “Vais ser avô”. A mensagem era do Samir.
Liguei-lhe imediatamente, pai e mãe tinham acabado de ter a confirmação da
gravidez da Arta. Algumas semanas depois o Samir mandou-me outra mensagem: “Vais ser
avô de um neto”. Ainda não apaguei essas mensagens do telemóvel.
O
nascimento do Déon foi uma festa discreta. Faltavam os avós, os irmãos, os
tios, os primos, as pessoas todas que gostamos de ter à nossa volta. Guardei muitas fotografias das primeiras 24 horas do bebé, e fiz dois ou três pequenos filmes; a minha preocupação era mandar imediatamente algumas imagens para os familiares no Kosovo. E passei a usar especialmente um desses filmes nas minhas aulas de Psicologia para falar da maneira como a comunicação humana acontece logo desde esses primeiros momentos, com participação e envolvimento muito ativo do bebé. Tudo
correu bem durante o primeiro mês de vida. Nessa altura, uma volta inesperada
na saúde do bebé pôs-nos aos três – mãe, pai e eu – na mais longa e mais
angustiante noite das nossas vidas. O bebé ficou muito perto de morrer. A
cirurgiã-pediatra pediu-nos para tomarmos a decisão que para mim era bem mais
difícil que todas as outras que alguma vez tive de tomar desde que me conheço
como sujeito que pensa, escolhe e decide. Salvámos o bebé, é agora um
“pilinhas” encantador, transborda vitalidade e alegria.
O Déon prodigaliza saúde, vitalidade e alegria, só que agora, como já disse, em
Zurique e não mais em Odivelas ou Lisboa. A primeira vez que ele me viu pela webcam no Facebook fez uma cara de
espanto, e ficou parado que nem estátua. A seguir, eu vejo-o voltar para trás, a
correr e a desaparecer da área de visão da imagem ao computador. Pouco depois –
que simbolismo tocante! – regressa, trazendo um enorme autocarro de turismo em
ambas as mãos. Era um enorme autocarro de brincar! Pára bem à frente do computador, fixa o olhar em mim e estende,
ainda com ambas as mãos, o autocarro! A seguir, sempre espontaneamente, baixa a
cabeça, com ar triste, faz beicinho, tem um ar suplicante. Olha-me outra vez.
Parece que me pede, se calhar, o que eu quero imaginar que ele me está a pedir:
que apanhe o autocarro e vá para ao pé deles, brincar com ele.
Depois dessa interação facebookiana, encontrei-me já mais algumas vezes com o Déon na Internet. É cada vez mais visível na vozita
doce do menino o domínio da língua dos pais e dos tios com quem ele vive lá na
Suíça.
Mas
hoje, o vocábulo novo, que o pai lhe falou com o afeto da língua materna foi
“avô”. E foi essa palavra, assimilada com o jeito das palavras da língua
materna, que o Déon me dirigiu na forma “abô”. E depois repetiu, repetiu,
repetiu.
Foi
este precisamente o génio sábio, intuído, do meu filho kosovar, o Samir. Eu
nunca ocuparei o lugar dos avós (os “avôs”) materno e paterno. Não é isso que está em causa, não é essa sequer a natureza da dinâmica relacional em questão. Já disse lá mais para trás neste texto que os avós adoram o neto e o neto adora os avós. Eles serão "avô’s" na língua
em que todas as crianças kosovares chamam avô aos progenitores masculinos do
seu pai e da sua mãe. E eu serei o “abô”, o único que o Déon pronunciará desta
maneira. O “abô” do Déon, na sua palavra dita será um vocábulo identificador de
alguém – único, repito – que é afetivamente significativo para ele, bebé, como
são afetivamente únicos aqueles a quem ele chama mãe, pai, tio, avô, avó…
São o
pai e a mãe que dão ao filho o nome, a palavra, que identifica os outros e as
coisas; e na carga emocional que os pais transportam nessas palavras, aos
poucos, essas palavras são ditas pela criança carregadas de emoções e
sentimentos próprios; laços afetivos e sentido de identidade pessoal.
O Déon
captou do pai, uma das metades essenciais do seu mundo relacional – e
praticamente mais nada existe na vida de uma criança desta idade para além
deste mundo; o mundo que será a matriz de tudo o mais que lhe surgirá daqui
para a frente, seja o que seja, traga que outros mundos lhe traga –, captou das
modulações de voz a que a criança é sensível, como só são minuciosamente
sensíveis as crianças nesta idade (é, na verdade, uma competência comportamental
fascinante ainda com muito por explicar pelos especialistas comportamentais destes fenómenos), o carinho, a confiança, a segurança
que vêm com a palavra que o pai lhe dirigiu e estes sentires ou sentimentos passarão
a fazer sempre parte da natureza real e simbólica da palavra. “Avô”.
Os avós
kosovares do Déon sentirão o que a sua natureza humana, cultura familiar e
cultura social de origem lhes propõem que sintam quando os netos pronunciam a
palavra “avô”, na sua língua materna. Eu sentirei o que a minha cultura me
propõe sentir quando um petiz como o Déon me chama “avô”. E ele pronunciará
esse vocábulo com o mesmo jeito pessoal como pronunciará, na língua dos seus
avós, a palavra “avô”.
Recebida
do pai, a palavra “avô” em português não é entendida como sendo de uma língua
diferente da língua materna em que comunica com os pais, em que pensa, em que
aprende, em que brinca. É essa palavra natural, maternal, que o Déon me diz
quando pronuncia “abô”; e – coisa espantosa! – eu recebo-a com o valor afetivo
e cognitivo que a palavra tem na minha língua materna! Foi esse o ponto de encontro que o Samir, o
meu filho que não é meu filho e que deu um neto assim que soube que a sua
querida esposa estava grávida, conseguiu hoje num momento de inspiração muito
afortunado.
Fantástico,
Samir! Tão grande a generosidade do que me fizeste! Muitos parabéns pela
maneira sábia como lidaste connosco - o teu filho e este personagem de bigode que tanta atenção e ação já mereceu dele - e soubeste preservar o lugar próprio de
cada um de nós no universo relacional do vosso filho – de mim, do teu pai e do
pai da Arta.
Vá, vai
lá, vai passear com o Déon, vai brincar com ele à beira do lindo lago de Zurique. E logo à noite,
quando a a hora de deitar chegar, conta uma linda história ao meu neto, para
que ele tenha o sono feliz dos anjos! Como se diz, em kosovar, “Era uma vez…”?
Fernando Pinto
Em casa, 25 de junho de 2013
sábado, 22 de junho de 2013
A FORÇA DAS PALAVRAS DE JOÃO DOS SANTOS
Imaginando-me a falar com João
dos Santos, ou a pensar ao lado dele
A FORÇA DAS
PALAVRAS DE JOÃO DOS SANTOS
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| http://ocantodaines.blogspot.pt/2013/04/amigos-dos-avos.html |
O dr. João dos Santos apreciava
muito Fernando Pessoa, por mais do que uma vez, nas aulas, ele falou aos alunos
do curso de Psicologia da Faculdade de Psicologia de Lisboa, nas palavras
escritas pelo extraordinário poeta. O poeta era para o meu mestre um autor de
cabeceira. Nunca eu fiquei com a ideia de que o dr. João dos Santos estivesse a
usar esta expressão oral em sentido estrito, no sentido de se ler quando a
pessoa se acaba de deitar na cama, à hora do descanso da noite. Fiquei sempre
mais com a ideia de que era um autor que o acompanhava frequentemente, em horas
em que o cansaço pede, e as ocupações permitem, o recobro da atenção, do fluir do pensamento e do discurso falado, feitos,
pensamento e discurso, de palavras que esclarecem sentidos para o Próprio e
lhes dão formas comunicáveis para o Outro, que, na ação psicoterapêutica habitualmente é alguém que vem
ao encontro do terapeuta pedindo ajuda por intermédio da palavra.
“Quem
não vê bem uma palavra não vê bem uma alma”, escreveu um dia Fernando
Pessoa. Penso que era esse olhar profundo que o dr. João dos Santos procurava
nas palavras de Fernando Pessoa, que foi quem, precisamente, escreveu, por vontade e por
génio, em verso e em texto, palavras com esse sentido profundo.
Todos sabemos – o dr. João dos
Santos também o disse aos alunos – que Fernando Pessoa designou o Padre António
Vieira o imperador da Língua Portuguesa. Quem conhece os escritos do Padre
António Viera percebe porque pensa Fernando Pessoa assim, mesmo que não
concorde. Ora, no meu entender e penso que também no entender do dr. João dos
Santos, Fernando Pessoa é o grande sucessor de António Vieira na forma como
trata as palavras e as organiza em versos e frases de sentidos rigorosos,
precisos e claros.
O dr. João dos Santos tem
seguramente consciência do que Fernando Pessoa diz sobre a ideia de palavra e
do valor fundamental que ela encerra. Escreve Fernando Pessoa:
A palavra falada é um fenómeno natural; a palavra escrita é um fenómeno
cultural. O homem natural pode viver perfeitamente sem ler nem escrever. Não o
pode o homem a que chamamos civilizado: por isso, como disse, a palavra escrita
é um fenómeno cultural, não da natureza mas da civilização, da qual a cultura é
a essência e o esteio.
As palavras não nascem com os
indivíduos. Todos os indivíduos, assim que nascem, tornam-se membros de grupos
humanos que lhes trazem palavras que, aos poucos, vão sendo, como coisa
natural, a maneira de expressar, para eles mesmos e para os outros, “tenho fome”, ou “o boneco, dá”, ou “Mãe!”
Pode-se mesmo dizer que o universo relacional da criança – a criança de
desenvolvimento saudável normal – não existe sem as palavras; e quando o bebé
“pensa”, reconhece o que está a sentir, fá-lo com as palavras que começou a
receber logo que nasceu através das pessoas que existem à sua volta. E mesmo
que tenha começado por pensar ou reconhecer com imagens o que sentiu, as
representações mentais, para serem comunicáveis seguem habitualmente o caminho
da sua representação por palavras.
De tudo isto resulta a importância
que o dr. João dos Santos atribui à palavra, e a que também não é certamente indiferente
o que ele aprendeu e conversou com Henri Wallon e Serge Lebovici.
A palavra é, na verdade… quase… um fenómeno
natural. Em rigor, as palavras são qualquer coisa já para além da simples
natureza dos sons articulados pelo aparelho fonador do ser humano. Até por
volta, em geral, dos dois anos de idade, a criança sente, e toma consciência
disso, que quer dizer Não. Antes,
ainda sem saber falar, a criança aprendeu a abanar a cabeça para mostrar ao seu
interlocutor que o que sente é “Não!”;
articula sons, gritos, choros, gestos e só mais tarde aprende a dizer não, ou no, ou non, ou…, ou…, ou…
Ora bem, para além da condição
natural ou cultural da palavra, o dr. João dos Santos tem o entendimento claro
da sua importância enquanto veículo de significados; mais, a palavra é veículo
e é corpo de significados. Por exemplo, quando alguém diz que está um dia lindo de morrer, o sentido
veiculado pelas palavras é outra coisa que está para além do corpo das palavras
que compõem a expressão, centrada à volta da palavra “morrer”, a qual, tendo
corpo para uma coisa, neste caso veicula o significado precisamente do seu
oposto: o que é lindo é viver num dia assim, de tanta luz!
A mim parece-me que quando João dos
Santos diz, por exemplo, que “a
instabilidade é a procura da estabilidade”, ou que “o xixi na cama é um sonho com o corpo”, ele não está a fazer jogos
de palavras; isso sim, ele está a usar as palavras em sentidos ou significados
diretos, claros, que os interlocutores (quase sempre as crianças – ou porque
são crianças mesmo, ou porque é às crianças que estão nos adultos que João dos Santos se dirige) entendem com
precisão e não com sentidos ou significados simbólicos diferentes que podem ser
captados ou entendidos diferentemente por quem diz as palavras e por quem as
ouve.
É esse rigor próprio, específico, da
palavra e, por extensão, da frase que, no meu entender, João dos Santos vai
procurar, vai ler e reler em Fernando Pessoa. O poeta e escritor tem esse dom,
o de nos mostrar no que escreve a capacidade que as palavras têm de dizerem o
que as pessoas sentem; e também de sentirem, através das palavras, o que, sem
elas, experimentam no corpo, nos afetos e na mente, mas sem conseguirem
reconhecer que sentem.
Quando João dos Santos diz que o adulto pode ajudar a criança a simbolizar, entendo, em sentido lato, que ele conta com a palavra como o meio ou instrumento privilegiado para o fazer; e fazer outra coisa mais do que interpretar ou dar significado às manifestações comportamentais e aos sintomas das crianças. O desafio para o terapeuta (e para o pedagogo curador) é encontrar as palavras que a criança ainda não encontrou para os significados que já tem dentro de si e para as coisas que já sente mas ainda não consegue compreender. Acredito que António Damásio, que nos põe a pensar nas emoções como as formas primitivas (ou mesmo primordiais?) de pensamento, compreenderá o que estou a dizer.
Sabe-se, hoje em dia, que, pelo menos em certos casos, é possível induzir numa pessoa uma emoção ou um sentimento pela simples estimulação elétrica de todos os músculos (e pele) que participam na configuração da expressão facial que a vivência pessoal de uma emoção – por exemplo, a melancolia – produz. Quer dizer, quem nunca sentiu melancolia pode ser induzido a senti-la por simples estimulação elétrica exterior, sem que esse sentimento seja resultante de qualquer experiência relacional concreta anterior indutora.
Sabe-se, hoje em dia, que, pelo menos em certos casos, é possível induzir numa pessoa uma emoção ou um sentimento pela simples estimulação elétrica de todos os músculos (e pele) que participam na configuração da expressão facial que a vivência pessoal de uma emoção – por exemplo, a melancolia – produz. Quer dizer, quem nunca sentiu melancolia pode ser induzido a senti-la por simples estimulação elétrica exterior, sem que esse sentimento seja resultante de qualquer experiência relacional concreta anterior indutora.
Com as palavras, tantas vezes
acontece o seguinte fenómeno, que, se calhar, é o que está no cerne das
perturbações psicológicas: as pessoas que não estão bem, que não se sentem bem,
não abandonam o seu sintoma – que é sempre um sinal interno que reclama ser
entendido (quem sabe?, até mais pelos outros do que por elas mesmas) -, não abandonam o seu sofrimento psicológico porque não sabem ou não conseguem encontrar a palavra que
veicula ou dá corpo à experiência vital – afetiva ou emocional – do bloqueio ou
do sofrimento psicológico que tal sintoma denuncia. O dr. João dos Santos é
mestre notável nesta arte de encontrar as palavras que desbloqueiam o que está
num impasse, ou que aliviam o sofrimento porque permitem que ele se transforme
noutras coisas mais suportáveis; e isso faz-se com o poder das palavras.
Palavras que são ditas ou que precisam apenas de serem pensadas.
“A
linguagem fez-se para que nos sirvamos dela, não para que a sirvamos a ela.” disse ainda Fernando Pessoa. É esse jeito único, no momento de estar com as
crianças, de se servir das palavras, que o dr. João dos Santos exibe com
mestria. Tranquila, serena, mas consistente mestria.
O terapeuta que vê bem a palavra,
ajuda quem o procura a ver bem a palavra que precisa; e quem vê bem a palavra
que precisa vê bem a alma que é a sua e a alma em quem se espelha, que é a do
terapeuta.
Também ao educador cabe ajudar o
aluno a servir-se da palavra. João dos Santos diz que é mais importante aquilo que se é do que aquilo que se sabe. Talvez
o ser humano tenha inventado uma forma de existência em que só se é através da
palavra. Por isso a palavra é mais importante para o que se é do que para o que
se sabe.
Fernando
Pinto
21 de
junho de 2013
(este texto foi escrito depois
de rever o dr. João dos Santos no documentário Photomaton a ele dedicado, visionado no dia 20 de Junho, no Hotel 3K Europa em Lisboa, no âmbito da iniciativa da Sociedade Portuguesa de Psicanálise, UM SERÃO NA COMPANHIA DE JOÃO DOS SANTOS)
sábado, 14 de maio de 2011
Ron Gutman: The hidden power of smiling | Video on TED.com
Para ver com atenção... para ver com um sorriso no rosto.
Vale a pena ver, mesmo ainda sem as legendas na nossa língua.
As ilustrações são muito boas, muito dinâmicas; ajudam muito a apanhar o fio da meada.
Vá, todos a sorrir!...
Ron Gutman: The hidden power of smiling | Video on TED.com
sexta-feira, 11 de março de 2011
Damn! I thought I knew that!: Damn! I thought I knew that!
Vou escrever aqui coisas que vão aparecendo ao sabor do que o meu programa de doutoramento mandar.
Damn! I thought I knew that!: Damn! I thought I knew that!: "I don’t know, but I like to think that the sentence “Damn! I thought I knew that!” is a kind of child, or grandchil of that one students use..."
Agradeço todos os contributos, em qualquer língua.
sábado, 16 de outubro de 2010
A alma é uma ilusão cerebral
A edição desta semana da Visão (n.º 919), na rubrica "Textualmente" reproduz o que terá sido uma afirmação de António Damásio ao jornal El Mundo:
- A alma é uma ilusão cerebral.
Quem não pensa assim, diria que a afirmação está "descontextualizada", desvalorizando o seu conteúdo e impacto.
Prefiro outro procedimento: dizer que toda a afirmação fundamental sobre a alma não pode dispensar a relação com o Outro. É na relação com o Outro que surge a experiência emocional e cognitiva do inefável. Provavelmente é aí que surge a alma. Porque todo o sentido só existe na presença ou em função de um Outro.
Sendo assim, a alma tanto pode ser uma criação como uma descoberta.
O cérebro é apenas a estrutura biológica que permite criar a ilusão necessária - todas as ilusões necessárias - à consciência e ao sentimento do ser, de ser-se. Ser-se sujeito e pessoa; em relação com os outros.
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
Petição Serviços de Psicologia nas Escolas
Petição Serviços de Psicologia nas Escolas
Em uníssono com os meus colegas! Aos psicólogos e aos Serviços de Psicologia, o seu justo lugar nas escolas portuguesas!
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